domingo, 10 de fevereiro de 2008

Cultura: O boi, a tragédia, e a ficção.

As tradições são ressignificadas e, muitas vezes, usa-se o argumento do folclore para isentá-las.

POR SAMANTHA BUGLIONE *

Mario de Andrade definiu o boi como "o bicho nacional por excelência". Afinal, promove alimento e diversão: pão e circo, para dizer de outra forma. No Dicionário do Folclore Brasileiro de Luís da Câmara Cascudo (1962), não existe o verbete "farra do boi", apenas "boi-na-vara", que era um "habitualismo ilhéu", tido como uma "revivescência da tourada-a-corda praticada no Arquipélago dos Açores", conforme explicação de Walter Piazza. O tal "habitualismo" tratava-se de fustigar o animal, depois matá-lo e repartir a carne entre os participantes. O ponto é que a farra tratada hoje não é a "originalmente" - se é que se pode dizer que o original existe - deixada pelos açoriano-brasileiros. As ditas tradições são ressignificadas e, muitas vezes, usa-se o argumento do folclore para isentar qualquer feito. Aqui entra a ficção: defende-se uma tradição que pouco se conhece.

Incrível chamarmos uma prática de tradição quando o sentido desta prática se perdeu. O boi, hoje, é perseguido a caminhão e a morte não é mais exclusiva dele. Itamar Nicolau morreu, aos 17 anos, com traumatismo craniano por ter caído do caminhão - o mesmo que perseguia o boi. A diferença brutal entre Nicolau e o boi é que o boi não estava lá porque queria. A semelhança: ambos não queriam morrer daquela forma - Nicolau pela morte prematura e o boi pela morte anunciada. O que aconteceu aqui não diz respeito apenas à família de Nicolau, tampouco a farra refere-se apenas aos farristas, o fato trágico é aquele que ultrapassa o caso individual, ou seja, é uma reflexão sobre o ser humano. A tragédia está na morte e a ficção na tradição.

Por que ficção? O que é a tradição do "boi-na-vara", hoje mais conhecida como "farra do boi"? Qual a razão deste "habitualismo"? "Boi de campo", "boi-no-laço", "boi-solto", "brincadeira-de-boi", ou, simplesmente, "boi" são algumas das denominações para explicar algo próprio de uma época quando parte do cotidiano das atividades agrícolas e domésticas dos açoriano-brasileiros. A tal farra do boi tem a ver com as antigas formas de se amansar os animais destinados ao carro de boi, à tração do engenho ou à lida do tropeiro, a quem cabia o comércio do gado chucro. Pois bem, hoje, nas cidades, já não há nem um, nem outro. O boi se compra cortado e manso no supermercado. Os tropeiros viraram criadores e ninguém mais precisa de carro de boi para transportar coisa alguma, tampouco de engenho para os grãos.

Acontece que não há memória a ser preservada, porque nem ao menos se sabe o que preservar. A velha Ilha do brigadeiro José da Silva Paes de outrora, que recebeu, em meados do século 18, os açorianos e madeirenses, pouco guarda desta história. Pouco preserva da arquitetura, da vegetação, dos adagiários e da lida caseira na forma de fazer as coisas do dia-a-dia. As ruas de chão batido e de pedra deram lugar ao asfalto. Parte da praia cedeu espaço às avenidas. Ainda há uma figueira um tanto deslocada na praça - para alguns, até espaçosa. A questão é que pouco, muito pouco, das práticas, dos gostos, da forma de viver a vida de outrora se guarda entre nós. Fica, pois, a pergunta: por que tanto empenho em preservar a "farra do boi"? Por que, diante de tanta riqueza - arquitetônica, por exemplo -, se quer investir exatamente ali, no que, hoje, sem sentido, apenas simboliza a crueldade e a violência.

O "boi-na-vara" dos açoriano-brasileiros e das festas da época se perdeu, assim como tantas outras coisas se perdem na história. Nos falta alma. Sim, falta alma na comemoração que teimamos em manter. Uma tradição não existe sem o sentido vivo que a mantém, sem a razão que a preserva. O que, antes, era um misto de euforia e respeito - afinal, o boi seria o alimento para tantos por um bom tempo - é, hoje, vandalismo. Sim, porque uma festa sem razão, que viola, agride e faz sofrer simplesmente porque assim o quer, é um "habitualismo" difícil de admitir-se como expressão dos valores comuns de uma determinada comunidade. Por outro lado, Eugênio Lacerda, em artigo sobre o tema, lança olhos ao processo de desqualificação da farra como folclore. Em parte, argumenta ele, pelo "processo de tribunalização", que a transforma em algo exótico ou vandalismo para alguns e palatável, cultural, corajoso, para outros. Porém, insisto no argumento do vandalismo por uma única razão: a falta de razão da própria farra. Pode tratar-se de uma nova tradição vindoura, que presa o risco da força, mas não se trata mais do "boi-na-vara" dos açoriano-brasileiros. Por isso o argumento da tradição não faz mais sentido.

Sendo a "farra" uma "festa" dos dias de hoje, é neste contexto que deve ser compreendida. Ou seja, num contexto em que a satisfação de uns não pode se dar às custas da dor do outro, mesmo que este outro seja um ser subjugado e com preço - no caso, o animal boi. É na morte estúpida de Nicolau que o fato morte na "farra" é visto como desnecessário. A morte de Nicolau tem, em si, o preço do risco pago - um preço caro, mas, ainda assim, um preço. Mas, de certa forma, o trágico da sua morte se dissipa, uma vez que ela é a razão da própria "farra". O incômodo é que morreu quem não deveria. Talvez a morte de Nicolau simbolize o desdém com o qual se trata a vida. O risco assumido, também desnecessário, de perseguir um boi numa carreta sem condições para tal, às 4h da madrugada, reflete o pouco cuidado com a vida. Quando se fala em direitos dos animais ou em bem-estar dos animais não se promove a igualdade entre diferentes espécies, porque não há igualdade entre elas. O que há são animais com uma total incapacidade de ter seus interesses observados: animais cuja natureza é servir ao homem, tal qual negros e mulheres já fizeram na história humana.

Somos ainda racistas. Ignoramos o valor da diferença e fazemos dela argumento útil para justificar interesses. No caso dos animais, não se fala em racismo, mas em especismo, que é, igualmente, uma discriminação praticada "pelo homem contra outras espécies", como explica Richard Ryder. Tanto o racismo quanto o especismo - e até o sexismo -, conforme observa Sonia Felipe, "não levam em conta ou subestimam as semelhanças entre o discriminador e aquele contra quem este discrimina. Ambas as formas de preconceito expressam um desprezo egoísta pelos interesses de outros e por seu sofrimento". Parece que não apenas as tradições se ressignificam, mas os preconceitos também. Para os defensores dos direitos dos animais, o princípio fundamental é de que todos os animais não-humanos merecem viver de acordo com suas próprias naturezas, livres de serem feridos, abusados e explorados. Princípio, este, que vai além do que advoga, por sua vez, o movimento pelo bem-estar animal, que objetiva garantir o mínimo de bem-estar aos animais que são explorados antes do abate. Esclarecimentos à parte, o importante é que a negação da idéia do direito de liberdade dos animais ou do cuidado com o seu bem-estar reforça o quanto nos falta compaixão, não apenas com os da nossa espécie, mas com outros animais, também capazes de sentir dor, medo e afeição.

Interessante é perceber que o que nos faz tão humanos, como a preocupação em melhorar a qualidade de vida, lutar contra a miséria, diminuir a dor, preservar a vida, é tudo, absolutamente tudo, que se esvai na forma como a farra do boi é feita. Não mais o respeito ao alimento, não mais a preocupação com a dor. Apenas o gozo, a festa, o prazer egoísta. É aterrador o quanto a vida se vulgariza por atos como este. Farrear, matar, arriscar a própria vida sem razão expressam o desejo egoísta que compensa a morte. Nas palavras do poeta Sri Aurobindo, "vida é vida - seja de um gato, cão ou homem. Não há diferença entre um gato e um homem nesse aspecto. A idéia de diferença é uma criação humana para o seu próprio proveito". Não se está, aqui, promovendo - o que seria heresia para alguns - a equiparação entre humanos e não-humanos. Como já foi referido, não há igualdade. O que há é o dever com a vida, a solidariedade com a dor, o respeito pelo outro, seja da mesma espécie ou não.

Por conta disso, é possível concluir que a farra do boi serve apenas para uma coisa: promover o risco, levar ao limite e divertir aqueles que vibram com a morte cruel. O boi-na-vara tradicional não existe mais, como também não existem mais as razões para aquelas práticas. Assim, não há conflito entre tradição e proteção aos animais. Simplesmente porque não há mais a tradição que se apregoa. O que há é crime: violação do art. 32 da Lei nº 9.605, de 1998, que imputa pena de detenção de três meses a um ano e multa para quem "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos". Ainda o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada em assembléia da Unesco, em Bruxelas, a 27 de janeiro de 1978, destaca que "todos os animais nascem iguais diante da vida e têm o mesmo direito à existência". A tradição se dissipou. Restou apenas um álibi para a crueldade. E, por fim, a morte: a morte tradicional do boi, talvez a única tradição em tudo isto, e a morte precoce de Nicolau.


* Mestre e professora de Direito, doutoranda em Ciências Humanas na UFSC.

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